Manaus, 5 de julho de 2022

Amazônia

Foto: Diógenes Tavares dos Santos/Acervo de Belisário Arce
Foto: Diógenes Tavares dos Santos/Acervo de Belisário Arce Foto: Diógenes Tavares dos Santos/Acervo de Belisário Arce

Fordlândia: a cidade criada pelo fundador da Ford na Amazônia

O Portal Edilene Mafra conta detalhes dessa história.

Por Eliena Monteiro

A Ford virou destaque no noticiário nacional após anunciar, na segunda-feira (11/01), o encerramento de sua produção de automóveis no Brasil. O criador da companhia, Henry Ford, influenciou o mercado brasileiro e também deixou sua marca na Amazônia, ao erguer, no início do século XX, a Fordlândia, no Pará. O Portal Edilene Mafra conta detalhes dessa história.

Henry Ford comprou terras no vale do Rio Tapajós, em julho de 1927, por 125 mil dólares, e às margens do rio, começou a erguer a Fordlândia.

Resgates históricos apontam que o empresário americano plantou seringueiras nas terras para produzir matéria-prima, a borracha, para os pneus dos automóveis fabricados pela Ford. Ao tentar criar seu próprio seringal, Ford buscava uma maneira de se tornar autossuficiente.

Imagem feita na primeira Fordliândia. Foto: Diógenes Tavares dos Santos/Acervo de Belisário Arce

De acordo com informações do Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (Iphan) no Pará, no início do século XX, as linhas de produção de Henry Ford fabricavam carros a uma velocidade nunca vista.

“Para manter a eficiência de sua produção sem depender dos asiáticos, Ford decidiu ter sua própria produção de látex, e para isso construiu uma cidade tipicamente americana em plena Amazônia, batizada de Fordlândia”, destaca o Iphan Pará.

A primeira Fordlândia possuía infraestrutura. Foto: Diógenes Tavares dos Santos/Acervo de Belisário Arce

Duas Fordlândias

A Companhia Ford Industrial do Brasil construiu duas Fordilândias na Amazônia.

De acordo com Belisário Arce, diretor-executivo da Associação PanAmazônia, autor do livro ‘Fordlândia – resgate de memórias afetivas de uma epopeia amazônica’, a primeira cidade foi erguida entre 1927 e 1939, numa localidade antes chamada de Bela Vista, na região do médio Tapajós, no Pará.

“A primeira Fordlândia foi fantástica. Tinha até trem, ferrovia. As ruas eram pavimentadas. Tinha água encanada, hidrantes, eletricidade. Todas as amenidades da vida moderna daquela época, na década de 20 e 30, que uma cidade urbana tinha, eles tinham em Fordlândia, o que era excepcional para a Amazônia naquele período”, ressalta.

Segundo Belisário, moradores de Belém e Manaus buscavam assistência no hospital de Fordlândia, que também já contava com escola. “As casas eram muito bem construídas. Os trabalhadores que viviam lá acabavam tendo uma qualidade de vida muito boa”, diz.

A cidade era controlada pela companhia, que definia as regras de convivência e de entrada e saída. “Brasileiros não podiam entrar sem antes ter uma autorização prévia. Eles criaram uma espécie de comunidade à parte”, avalia.

A segunda Fordilândia era menor e foi construída entre 1940 e 1946, em Belterra, outra localidade paraense, no baixo Tapajós.

Belisário Arce é autor do livro ‘Fordlândia – resgate de memórias afetivas de uma epopeia amazônica’. Foto: Reprodução

A mudança da companhia

O investimento de Henry Ford na construção da primeira Fordlândia não vingou.

De acordo com Belisário, em 1939, as seringueiras da primeira Fordilândia começaram a apresentar problemas. As condições geográficas da região estão entre os principais fatores. “Essa região era cheia de relevos e tinha pouca irrigação. Não tinha igarapés, ou seja, o terreno não foi bem escolhido. E as seringueiras, com o passar dos anos, não tiveram boa produtividade”, destaca.

A companhia decidiu comprar o terreno em Belterra, localidade que hoje é um bairro da cidade de Santarém, no Pará.

Em 1946, com o declínio da borracha na Amazônia, a companhia decidiu desativar as atividades. Antes, em 1945, quando a II Guerra Mundial chegou ao fim, a borracha sintética surgiu no mercado mundial. “Não tinha mais como competir. Não tinha mais preço para a borracha natural”, conta Belisário.

O governo brasileiro indenizou a companhia pelos investimentos em Fordlândia.

Fordlândia. Foto: Diógenes Tavares dos Santos/Acervo de Belisário Arce

Dias atuais

Após a saída da companhia, as localidades foram abandonadas. A Fordlândia de Belterra, por pertencer a Santarém, sempre foi mais povoada.

“Já a outra, a primeira e maior, ficou abandonada durante muitos anos. O mato tomou conta”, afirma Belisário.

Nos anos 1970, quando a Amazônia voltou a ser ocupada, a localidade de Bela Vista voltou a receber moradores, que construíram uma igreja no local.

“Nessa primeira, criaram a Associação de Moradores de Fordlândia e essas pessoas começaram a fazer alguns restauros. Eles restauraram a caixa d’água, com a ajuda do governo, mas por iniciativa dessa associação. É uma caixa d’água icônica, onde está escrito Ford”, conta.

Fordlândia nos dias atuais. Foto: Associação de Moradores de Fordlândia

Registros de um morador

Em setembro de 2017, o Pará recebeu uma exposição com fotos e textos sobre a Fordilândia. As imagens que deram origem à mostra foram feitas por Diógenes Tavares dos Santos, avô de Belisário Arce.

Santos era português, e chegou ao Brasil em 1920, aos 17 anos de idade. “Quando a Fordlândia começou a ser construída, ele tinha 20 e poucos anos, era jovem ainda. E ele foi logo chamado para trabalhar lá”, relata.

Em pouco tempo, Santos ficou responsável pela seleção de brasileiros que iriam trabalhar na companhia. “Ele ajudou a Fordlândia desde o início, em 1927. Em seguida, ele passou a ser responsável pelo setor de requisição de materiais. Ele era responsável por todas as compras que faziam para o local”, afirma.

Diógenes Santos, à esquerda. Foto: Arquivo da Família

Quando a gestão americana deixou a cidade, o português se tornou o administrador geral de Fordlândia erguida em Bela Vista. Ele não chegou a ir para a localidade de Belterra. “Eu passei a infância, adolescência e juventude ouvindo as histórias que o meu avô, minha mãe e as pessoas que moraram lá contavam”, lembra Belisário.

Diógenes, que gostava de fotografia, produziu diversas imagens de Fordlândia. “Algumas fotos das instalações, fotos das plantações, mas também fotos do dia a dia”, destaca Belisáro.

Família de Diógenes Tavares dos Santos, 1934, em Fordlândia. Foto: Arquivo da Família

Após deixar Fordlândia, Santos decidiu morar em Manaus, onde virou empresário e fundou a Santos & Cia, em 1940, e a Importadora Adal Magazin, em 1967. Ele faleceu em 1978.

“As pessoas falam que Fordlândia foi um fracasso. Não sei se foi um fracasso totalmente. Para as pessoas que viveram lá, foi bom. Os salários que eles ganhavam era acima da média no Brasil. Me avô conseguiu economizar. Com o dinheiro que ele ganhou, ele conseguiu a empresa dele aqui em Manaus em 1940”, afirma Belisário, ao citar a Santos & Cia.

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