Manaus, 28 de novembro de 2022

Religião

Foto: Arquivo/Associação Cultural Toy Badé
Foto: Arquivo/Associação Cultural Toy Badé Foto: Arquivo/Associação Cultural Toy Badé

Associação estima que o AM tenha 200 mil seguidores de Iemanjá

Nos rios da Amazônia, Iemanjá também é chamada de 'Mamiwatá'.

Por Stephane Simões

Neste dia 2 de fevereiro é comemorado o Dia de Iemanjá, conhecida como a rainha das águas e protetora dos navegantes e pescadores. Segundo Alberto Jorge, fundador e mantenedor da Associação de Desenvolvimento Sócio Cultural Toy Badé, com base no Festival Afroamazônico de Iemanjá, realizado no final do ano passado, há mais de 200 mil pessoas devotas desta divindade no Amazonas.

Iemanjá é de origem africana. É considerada uma das mais antigas do mundo e conhecida por dar origem e gerar outras divindades. Conforme Alberto, ela representa o modelo de grande mãe, da figura materna divinizada, que antecede o patriarcado que rege a humanidade.

Mamiwatá, Yemonjá ou Yemanjá. Foto: Arquivo/Associação Cultural Toy Badé

“Iemanjá é a senhora das águas, que protege os homens em momentos difíceis, principalmente os que se aventuram nas águas de rios e mares. Ela representa o poder da concepção, da capacidade de gerar, de parir, de criar. Então, sendo mãe de todas águas, Iemanjá tem o poder de trazer à vida”, explicou.

De acordo com Alberto, a verdadeira imagem de Iemanjá, originada entre os povos africanos, tem a forma de uma mulher, mãe, com idade um pouco avançada, quadris largos, de seios fartos e caídos.

“Há várias formas de se entender Iemanjá, partindo do próprio continente africano, que a veem como uma parte mulher. Ela também pode ser vista como parte cobra e parte peixe; como parte mulher e parte peixe; e ainda como parte mulher, cobra e peixe”, disse.

Iemanjá é a rainha das águas. Foto: Arquivo/Associação Cultural Toy Badé

Alberto afirmou que, no Brasil, com a junção dos grupos étnicos, ao longo de cerca de 300 anos, a imagem de Iemanjá vai ganhando um aprimoramento, uma junção de várias características. Com isso, ela passa a ser encontrada desde a mulher, senhora e mãe, até aquela que surge a partir de 1908, na Umbanda, que é a mulher longilínea, de curvas sensuais, andando sobre as águas, vestida de azul, com um vestido colado ao corpo.

“A imagem é muito parecida, também, com a de Nossa Senhora das Graças, com quem ela também é sincretizada. Iemanjá, assim como Maria, mãe de Jesus, concentra todos os títulos das antigas deusas, como figura materna e rainha. No catolicismo, ela sincretiza com Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora dos Navegantes e Nossa Senhora das Candeias, dependendo do lugar”, acrescentou.

Foto: Arquivo/Associação Cultural Toy Badé

No encontro entre as culturas amazônicas e africanas, na Amazônia, Iemanjá é vista como uma divindade que possui a parte superior do corpo como a de uma mulher; na parte inferior, até a metade da perna, ela é uma cobra; e, a partir dos joelhos, ela possui o rabo de peixe.

“Nos rios da Amazônia, em que Iemanjá é vista com essas características, nós, do Jeji Fon [um grupo], a chamamos de ‘Mamiwatá’. No Amazonas, as nossas lendas falam de Iara, mãe d’água, boiuna, que são as chamadas protetoras e donas dos rios”, esclareceu.

Oferendas a Iemanjá, na Ponta Negra, em Manaus, antes da pandemia. Foto: Arquivo/Associação Cultural Toy Badé

Cultos

Alberto Jorge contou que Iemanjá é considerada uma das divindades mais antigas e populares. No mundo, os cultos mais antigos à divindade datam da Idade da Pedra Lascada, quando não se utilizava objetos de metais.

No Brasil, uma das festas mais conhecidas e considerada centenária, de acordo com Alberto Jorge, é realizada no bairro Rio Vermelho, em Salvador, na Bahia. Ele contou que a devoção à Iemanjá começou em um momento de dificuldade de pesca. À ela podem ser são oferecidas rosas, flores brancas, perfumes, espelhos, búzios, conchas, comidas africanas, roupas, enfeites.

“Os pescadores estavam tendo dificuldades de pescar em alto mar e fazem a promessa com Iemanjá, e se valiam de Nossa Senhora dos Navegantes. Começa, então, aquela tradição, um agradecimento por uma boa pesca, a partir de um pescador, que vai levar ao mar, no dia de Nossa Senhora dos Navegantes, em uma pedra que eles consideravam encantada, o presente para Iemanjá”, contou.

Foto: Arquivo/Associação Cultural Toy Badé

No Amazonas, de acordo com ele, o marco regulatório oficial diz que os ritos dedicados à divindade vêm desde 1908. Porém, Alberto afirmou que há indícios de que os cultos já aconteciam antes dessa data. “Nosso marco regulatório era 4 de dezembro, de 1892. Mas hoje já temos provas de que esse marco, de fato, se confirma entre 1860 e 1865. Tudo nos leva a admitir que desde o período de 1865 já havia culto à essa divindade”, afirmou.

Aqui, Iemanjá é cultuada nos terreiros e nas beiras dos rios. Segundo Alberto, antigamente, achava-se que a divindade era exclusivamente a rainha do mar e só poderia ser cultuada em águas salgadas.

“Se questionava muito como fazer oferenda à Iemanjá nas águas dos rios Negro e Solimões. Hoje, graças ao intercâmbio com a África, podemos ver que lá Iemanjá não é cultuada no mar, pelo contrário, é cultuada nos rios, em água doces. Então, é um equívoco muito grande dizer que Iemanjá é exclusivamente a rainha do mar”, completou.

Conforme Alberto, a saudação de Iemanjá, no candomblé, há mais de 300 anos no Brasil, é ‘Odoyá’, que significa ‘mãe do rio’. Por isso, ele acredita que a divindade pode ser cultuada em qualquer lugar que tenha água.

“Nós temos um dos lugares que é considerado um dos mais fantásticos e de força maior no mundo, que é o encontro das águas. É dito pelos antigos que, no Encontro das Águas, resideM divindades divinas femininas, de Iemanjá e Oxum, mais velhas e fortes do mundo”, acrescentou.

Antes da pandemia, devotos se reuniam na Ponta Negra, em Manaus, para as oferendas a Iemanjá. Foto: Arquivo/Associação Cultural Toy Badé

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