Manaus, 7 de julho de 2026

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Foto: Reprodução/Instagram
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Jornalista denuncia agressão e racismo durante Festival de Parintins 2026

Caso é investigado por autoridades e gera manifestações de solidariedade.

Por Edilene Mafra

Durante a cobertura do 59º Festival Folclórico de Parintins, na madrugada de 29 de junho de 2026, o jornalista Marcelo Rocha, colaborador da Mídia Ninja, denunciou ter sido vítima de agressão física e injúria racial no Bumbódromo. O caso foi registrado oficialmente pela Polícia Civil do Amazonas através do Boletim de Ocorrência nº 198019/2026 e gerou manifestações de entidades culturais, jornalísticas e do Governo do Amazonas.

A equipe do Portal Edilene Mafra apurou as informações junto aos envolvidos para apresentar um panorama completo do episódio ocorrido no maior festival cultural da Amazônia.

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Jornalista Marcelo Rocha. Foto: Reprodução/Instagram

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FESTIVAL COMO ESPAÇO DE CELEBRAÇÃO E LUTA

O Festival de Parintins tem se consolidado como um espaço fundamental de celebração da cultura amazônica e, historicamente, tem servido como pano de fundo para as lutas dos povos negros e indígenas da região.

Este ano, o festival marcou um momento significativo: o reconhecimento do Quilombo da Baixa como o primeiro quilombo afro-indígena do Amazonas, reafirmando a importância da celebração da diversidade e da ancestralidade amazônica.

É neste contexto de valorização da cultura e dos direitos dos povos originários que o episódio de violência e discriminação racial contra o jornalista Marcelo Rocha ganha relevância, evidenciando desafios que persistem mesmo em espaços dedicados à celebração da diversidade.

OS RELATOS

Segundo a denúncia de Marcelo Rocha, o incidente ocorreu durante a apresentação do Boi Garantido. O jornalista estava posicionado no fosso, área destinada à imprensa, registrando a entrada da cunhã-poranga Isabelle Nogueira. De acordo com seu relato, uma mulher de 38 anos, que assistia à apresentação no espaço reservado a Pessoas com Deficiência (PCDs) localizado acima do fosso, exigiu que ele abaixasse o celular.

Segundo Marcelo, ele respondeu que estava trabalhando e precisava concluir o registro. De acordo com sua versão dos fatos, a mulher então desferiu um tapa no rosto do jornalista.

Quando Marcelo tentou filmar a suposta agressora para identificá-la, ele afirma que ela avançou novamente e passou a proferir ofensas racistas, chamando-o de “neguinho vagabundo”. O jornalista relata que pediu ajuda e que a equipe de segurança do evento o imobilizou, segurando-o pelos braços e pernas, e o arrastou até o posto policial do evento.

Na delegacia, Marcelo afirmou ter sido tratado como agressor em vez de vítima e coagido a assinar documentos sob ameaça de prisão. “Fui conduzido pela polícia como um criminoso. O que vivi não diz respeito apenas a mim. Fala sobre o racismo que continua tentando definir quem pode ocupar determinados espaços, inclusive o da imprensa”, relatou o jornalista em suas redes sociais.

REGISTRO OFICIAL E PROCEDIMENTOS

O Boletim de Ocorrência nº 198019/2026 registra formalmente a denúncia de injúria real e vias de fato. Conforme informações da Polícia Civil do Amazonas, a mulher de 38 anos estava acompanhada por uma menina no espaço reservado a PCDs quando ocorreu o desentendimento com o jornalista.

Os envolvidos foram encaminhados ao posto da Polícia Civil instalado no Bumbódromo e permaneceram em ambientes separados durante o atendimento. Posteriormente, foram levados ao Distrito Integrado de Polícia (DIP), onde foi lavrado o Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO).

RELATO EXLUSIVO AO PORTAL EDILENE MAFRA

Ao Portal Edilene Mafra, Marcelo Rocha relatou que enfrentou dificuldades durante o atendimento policial no Bumbódromo. Segundo o jornalista, foi tratado como agressor em vez de vítima, não sendo permitido que tivesse acesso a testemunhas e às imagens da área do atendimento policial.

Marcelo afirmou que, quando chegou à delegacia, o delegado não permitiu que ele fizesse exame de corpo delito e não permitiu que ele tipificasse o crime como lesão corporal, classificando o caso apenas como “vias de fato”.

Contudo, na quarta-feira, 1º de julho de 2026, o Ministério Público do Estado do Amazonas entrou em ação para investigar o caso e ouvir os envolvidos, sinalizando uma possível revisão da tipificação inicial do crime.

Segundo a nota do Governo do Amazonas via Secretaria de Cultura e Economia Criativa (SEC), o procedimento foi encaminhado ao Juizado Especial Criminal da Comarca de Parintins, responsável por dar continuidade à apuração, com a produção de novas provas, oitiva de testemunhas e garantia do contraditório e da ampla defesa às partes.

ENTENDENDO RACISMO E INJÚRIA RACIAL

É importante esclarecer, do ponto de vista jurídico e educativo, a diferença entre dois crimes frequentemente confundidos: racismo e injúria racial.

A injúria racial (Art. 140, § 3º, do Código Penal) consiste em ofender a honra de um indivíduo específico utilizando elementos referentes à raça, cor, etnia, religião ou origem. Já o crime de racismo (Lei 7.716/1989) atinge uma coletividade indeterminada, discriminando toda uma raça, como impedir o acesso a um estabelecimento comercial ou negar emprego.

Com a sanção da Lei 14.532/2023, a injúria racial passou a ser equiparada ao crime de racismo, tornando-se também um crime inafiançável e imprescritível. Isso significa que não cabe fiança e o crime não prescreve com o tempo.

No caso de Marcelo Rocha, a investigação está analisando tanto a agressão física quanto a denúncia de injúria racial, e com possibilidade de enquadramento como racismo conforme a legislação vigente.

QUESTÕES ESTRUTURAIS

O episódio expõe questões que demandam atenção. A proximidade e sobreposição entre a área de PCDs e o fosso da imprensa geram conflitos que podem ser mitigados com um planejamento de infraestrutura mais cuidadoso.

Independente disso, Marcelo Rocha afirmou que o ocorrido não pode se tornar motivo para violências físicas ou de cunho racial, mas ressaltou a necessidade de melhoria na organização dos espaços e na capacitação de profissionais de segurança. “Precisamos muito de preparação e treinamento para esses profissionais principalmente direcionados a resolução de conflitos e direitos humanos, equipe de segurança não pode ser ‘capanga'”, destacou.

O jornalista também destacou a necessidade de protocolos claros para o atendimento de denúncias de agressão e racismo, garantindo que vítimas tenham acesso a direitos básicos como testemunhas, imagens de segurança e exame de corpo delito, sem sofrer revitimização durante o processo investigativo.

Veja as notas emitidas pelo Governo do Estado, pelos Bois de Parintins e pelo Sindicado dos Jornalistas profissionais do Amazonas / Fenaj:

Entidades jornalísticas

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Amazonas (SINJOR/AM) e a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) manifestaram repúdio ao episódio, afirmando que é inadmissível que profissionais de imprensa sejam alvo de atitudes que visem diminuir, silenciar ou desumanizar o trabalhador. As entidades reafirmaram seu compromisso intransigente no combate a todas as formas de opressão e prestaram total solidariedade ao jornalista Marcelo Rocha, cobrando das autoridades competentes a rigorosa apuração dos fatos.

Agremiações

O Boi Caprichoso expressou irrestrita solidariedade, reforçou seu posicionamento intransigente no combate ao racismo e reafirmou o papel fundamental da imprensa livre. O Boi Garantido manifestou solidariedade ao jornalista, repudiando toda forma de violência, racismo, discriminação ou cerceamento ao livre exercício da atividade jornalística.

Governo do Amazonas

O Governo do Amazonas e a organização do 59º Festival Folclórico de Parintins informaram que acompanham a apuração do caso e não toleram qualquer prática discriminatória ou violação de direitos fundamentais. A organização informou ainda que tem colaborado integralmente com as autoridades, e o Governo prestou apoio jurídico ao jornalista, acionando a defensora pública de plantão durante a madrugada.

Mídia Ninja

A Mídia Ninja divulgou nota de solidariedade ao jornalista e informou que pretende levar o episódio ao Ministério Público.

CONTUNUIDADE DA INVESTIGAÇÃO

O procedimento foi encaminhado ao Juizado Especial Criminal da Comarca de Parintins, responsável por dar continuidade à apuração com produção de novas provas e oitiva de testemunhas.

A ação do Ministério Público, iniciada em 1º de julho de 2026, representa um passo importante na investigação do caso.

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