Raimundo Nonato, ‘Seu Nonato’ o servidor mais antigo do Teatro Amazonas morreu aos 89 anos em Manaus, nesta terça-feira, 3 de maio de 2025.
Com cinco décadas dedicadas ao templo da cultura amazonense, Seu Nonato, deixa um legado de 52 anos de dedicação ao maior ícone da cultura do Amazonas.
O velório está previsto para acontecer a partir das 10h30, desta terça-feira (3/6), no Teatro Amazonas. O sepultamento será às 10h de quarta-feira (4/6) no Cemitério Recando da Paz, no município de Iranduba, na região metropolitana de Manaus.

SEU NONATO
Filho de um ajudante de pedreiro e de uma lavadeira, Seu Nonato nasceu em 26 de fevereiro de 1935 e entrou para a história do Teatro Amazonas em 1973, quando foi contratado para trabalhar na reforma do edifício centenário.
Começou como pedreiro, ajudando a recuperar a cúpula e assentando o piso de mármore do hall de entrada, que permanece firme até hoje. A partir dali, nunca mais se afastou.
Ao longo dos anos, assumiu diversos papéis dentro da casa: pedreiro, porteiro, bilheteiro, indicador, assistente técnico, agente administrativo e cenotécnico. Era, como diziam os colegas, um verdadeiro “coringa” do teatro. Mas seu lugar favorito sempre foi o palco. Era dali que dizia aprender todos os dias, com cada peça, cada ensaio, cada espetáculo.
Em 2019, esse amor e dedicação foram reconhecidos oficialmente durante a abertura do 22º Festival Amazonas de Ópera. Raimundo Nonato foi homenageado com uma placa que hoje repousa na galeria do Teatro, ao lado de artistas que marcaram a história da cultura amazonense.
Em 2021, sua trajetória virou artigo acadêmico, escrito por um doutorando da Universidade do Estado de Santa Catarina para a revista Luz em Cena. Intitulado ‘Raimundo Nonato: Um conhecimento técnico construído na prática e no amor ao Teatro Amazonas”, o texto registrou com sensibilidade o valor humano e cultural do trabalhador autodidata que conhecia cada fresta do prédio histórico.
Histórias não faltam para contar. Seu Nonato lembrava com orgulho o dia em que, ainda no início, foi chamado para substituir um colega apavorado diante de uma pedra de mármore. Fez o trabalho com tanta segurança e habilidade que seu patrão não pensou duas vezes antes de lhe oferecer um salário maior.
Também ficou marcado pela visita do então presidente João Figueiredo, nos anos 1980. Vestiram-no com um terno, colocaram-no na linha de frente, e ele acabou sendo o anfitrião do presidente da República. “Eu era o único preto no meio dos brancos. Quando ele me cumprimentou, fiquei muito feliz”, recordava, com brilho nos olhos.
Mais tarde, também testemunhou momentos tocantes, como a visita do então príncipe Charles, hoje rei do Reino Unido. Ele chegou no palco sorrindo, cantou, e abraçou as senhoras da limpeza, que estavam com as vassouras nas mãos.
Seu Nonato parte, mas deixa uma presença permanente nos corredores, nas coxias, nos camarins e na alma do Teatro Amazonas. Seu nome ecoa junto à sua voz mansa e firme, entre as paredes que ajudou a erguer, conservar e iluminar com sua humanidade.