‘Perrengue Fashion’ tenta equilibrar humor e crítica, mas tropeça na representação da Amazônia
Longa não sustenta o retrato da região e reforça estereótipos.
16/10/2025 08:00
Por Thiago Nanine
Em ‘Perrengue Fashion’, Ingrid Guimarães volta ao cinema nacional em mais uma comédia que tenta equilibrar humor e crítica social. O longa tinha tudo para ser divertido e contribuir com a pauta ambiental, mas tropeça feio ao reforçar esteriótipos da Amazônia e seu povo.
Com a direção de Flávia Lacerda, o filme marca a estreia da Amazon MGM Studios em produções cinematográficas no Brasil.
Na trama, Guimarães interpreta Paula Pratta, uma influenciadora de moda que decide viajar até a Amazônia para reencontrar o filho (Filipe Bragança), que abandonou o estilo de vida urbano para viver em uma ecovila sustentável.
A comédia funciona em alguns momentos, principalmente pela química entre Ingrid Guimarães e Rafa Chalub, que têm um timming cômico afinado. Chalub, aliás, mostra talento além dos formatos curtos da internet e entrega uma performance que, por vezes, se torna o ponto alto do longa. Já Ingrid repete o mesmo tipo de atuação de outros papéis: a mulher atrapalhada, repleta de caretas e constrangimentos.
Foto: Divulgação
GRAVADO NO AMAZONAS ?
O filme se passa no Amazonas [precisamente na Comunidade do Catalão], mas o espectador raramente tem certeza disso: não há referência clara a lugares, cidades ou contextos locais.
Ingrid chega em um jatinho quebrado e, na cena seguinte, já aparece navegando por um rio com uma cidade ao fundo, um plano que, para olhares atentos, revela Manaus.
A partir daí, inicia-se uma jornada em barcos e canoas que parece interminável, culminando em uma comunidade isolada onde o filho vive ao lado de pessoas vindas de grandes centros e até do exterior. O discurso desses personagens, centrado em “salvar” a comunidade local, soa cansativo e reforça uma visão colonizadora e elitista.
Foto: Divulgação
Outro ponto negativo é a falta de representatividade. O filme se passa no Amazonas, mas poucos atores locais têm espaço, e, quando aparecem, servem apenas para reforçar clichês.
TROPEÇOS
Perrengue Fashion se propõe a transmitir uma mensagem, mas acaba repetindo erros já vistos em outras produções nacionais: falta de pesquisa, ausência de contexto e uma visão simplificada sobre a região e seu povo, prova disso é o fato da única personagem amazônida em destaque sendo acompanhada por um pagode genérico, o que reforça a sensação de descuido e preguiça na construção sonora.
Foto: Divulgação
O resultado é um filme que, apesar das boas intenções, erra no essencial: o respeito e o cuidado com a representação de um povo e de uma cultura.
PERRENGE CINEMATOFRÁFICO
Um perrengue cinematográfico que poderia servir de lição para futuras produções que escolham filmar na Amazônia: estudar o território e entender quem vive nele é o mínimo que se espera.
Foto: Divulgação
Entre equívocos de roteiro, estereótipos insistentes e uma direção perdida entre o humor e a pretensão crítica, Perrengue Fashion mal sustenta suas boas intenções e entrega, com sorte, duas estrelas de cinco.
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