‘A Casa Verde’: roteiro adaptado de obra de Machado de Assis está em desenvolvimento
Obra está previsto para o segundo semestre do ano.
06/06/2025 08:52
Com informações da assessoriaA clássica saga de Simão Bacamarte, o protagonista do conto ‘O Alienista’, de Machado de Assis, está prestes a ganhar um roteiro adaptado com características amazônidas. Intitulado ‘A Casa Verde’ em referência ao principal cenário da obra inicialmente publicada em 1882, o documento narrativo para produção de um longa-metragem está em pleno processo de criação, sob as quatro mãos dos artistas amazonenses Tércio Silva e Rafael Ramos.
Previsto para ser concluído nos próximos dois meses, o projeto de desenvolvimento do roteiro foi contemplado pela Lei Paulo Gustavo no edital nº 01/2023 – Chamamento público para ações na área do Audiovisual, promovido por meio do Conselho Estadual de Cultura (CONEC) e da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, e pelo Governo Federal, por meio do Ministério da Cultura (MinC).

ADAPTAÇÃO
A adaptação livre do conto do principal autor do realismo brasileiro se entrelaça ao pensamento filosófico e cosmológico do líder indígena Ailton Krenak.
A obra traz como cenário principal as imediações das ruínas de Paricatuba, local onde funcionou uma antiga leprosaria no Amazonas e que se transforma no ficcional hospital psiquiátrico ‘Casa Verde’, onde a sociedade interna os que não cabem nas normas.
Fundador da Buia Teatro Company (em parceria com a atriz, figurinista e artista visual Maria Hagge), Tércio pontua que a ideia do roteiro é costurar linguagens – literária, teatral, mítica e cinematográfica – para propor uma fábula crítica. Formigas que guiam caminhos, peixes que caem do céu, árvores que falam, rituais de cura com ervas do rio e sonhos onde a água vira espelho compõem a tapeçaria simbólica do filme.
“Esse projeto é mais que uma história sobre sanidade. É uma investigação visual, poética e política sobre os limites da razão ocidental, os apagamentos históricos e a força dos saberes ancestrais. Para nós, contar essa história é também um gesto de devolução: queremos que a Amazônia deixe de ser apenas locação e passe a ser linguagem, corpo, consciência”, salienta o diretor e dramaturgo.
HOMENAGEM
No roteiro de ‘A Casa Verde’, o protagonista, Dr. Bacamarte, é um médico negro e homossexual, que vê sua cruzada para classificar a loucura se desfazer diante de seus traumas, suas contradições, seus fantasmas.
A figura central que tensiona essa jornada é Lua, uma menina silenciada, que carrega no pescoço pequenas placas com frases como ‘Não confie em médicos’.
Com a proposta de ser drama simbólico/ficção amazônica/realismo fantástico, a narrativa não apenas homenageia Machado de Assis, com sua ironia e crítica feroz aos dispositivos de poder, como também ecoa a urgência das ideias de Krenak, propondo uma reconexão com o planeta como organismo vivo e sensível, segundo Rafael, que já dirigiu os filmes ‘Aquela Estrada’, ‘Formas de Voltar para Casa’, ‘Manaus Hot City’ e ‘Revoada’, exibidos em festivais como a Mostra Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo (Curta Kinoforum), Cine-PE, Mix Brasil, Shorts México, Festival Internacional de Cine Corto de Cali, San Diego Latino Film Festival.
CINEASTRA
Formado pela Academia Internacional de Cinema de São Paulo (AIC) e vencedor do Prêmio Canal Brasil e do Coelho de Ouro de Melhor Filme com “Manaus Hot City” – pontua que a obra também dialoga diretamente com o legado do realismo fantástico latino-americano, evocando referências como Gabriel García Márquez, Isabel Allende e Alejandro Jodorowsky, na construção de uma Amazônia fabular, onde o impossível é expressão profunda da verdade.
“A Casa Verde fala sobre o que a sociedade chama de loucura, mas trata da potência de quem ousa pensar diferente. É um filme sobre delírio, mas também sobre esperança”, declara.
Como contrapartida do ousado projeto, Tércio (que também atuou na equipe da série Aruanas e nos curtas “Obeso Mordido”, de Diego Bauer e Ricardo Manjaro, e “Até que a Última Luz se Apague”, de Arnaldo Barreto) e Rafael (que também é fundador da produtora cultural Balsa Amarela, atuando em projetos autorais de ficção e documentário, além de colaborações com outras produtoras) realizarão uma oficina gratuita de desenvolvimento de roteiro em Manaus, voltada a estudantes, cineastas iniciantes e interessados na linguagem cinematográfica.
A atividade será intensiva, abordando temas como estrutura narrativa, criação de personagens, construção de cenas e o uso do território como dramaturgia viva.