Manaus, 25 de maio de 2024

Entrevistas

Marcos Apolo Muniz. Foto: SEC
Marcos Apolo Muniz. Foto: SEC Marcos Apolo Muniz. Foto: SEC

De artista a secretário de Cultura do AM

Marcos Apolo Muniz começou no teatro e atuou nos bastidores.

Por Edilene Mafra e Eliena Monteiro

Ele respira cultura desde criança. A paixão pela arte despertou por volta dos dez anos de idade, quando assistiu seu primeiro espetáculo no Teatro Amazonas, em Manaus. Depois de iniciar a carreira em meio a uma fase marcante do teatro amazonense amador, Marcos Apolo Muniz foi ator, humorista e animador de eventos. Também atuou nos bastidores até chegar a ser escolhido secretário de Cultura e Economia Criativa do Amazonas.

Graduado em arquitetura e urbanismo, ele se especializou em gestão e produção de eventos. Na Secretaria de Cultura e Economia Criativa, começou a trajetória no universo do backstage ainda nos anos 1990, chegando a coordenar a Central Técnica de Produção até 2012.

Secretário de Cultura do Amazonas concedeu entrevista ao Portal Edilene Mafra. Foto: Portal Edilene Mafra

Depois, como empresário da área, Marcos Apolo Muniz assinou projetos técnicos de grandes proporções, como a readequação do Teatro Tereza D’Ávila, em Lorena (SP), e a cenografia das óperas I Puritani, Lucia di Lammermoor e Medée. Em 2019, se tornou o titular da SEC e aposta em uma gestão humanizada, com a arte sendo mecanismo de transformação social.

Em entrevista exclusiva ao Portal Edilene Mafra, direto do Palácio Rio Negro, no Centro de Manaus, além de dar detalhes de sua trajetória, Marcos Apolo Muniz falou sobre a atuação durante a pandemia, os desafios para auxiliar os artistas e profissionais da pasta durante a pior fase do distanciamento social, os editais de fomento e a retomada das atividades culturais.

Assista à entrevista:

Confira a íntegra da entrevista, em texto:

Edilene Mafra – O início está muito claro: foi dentro do mundo artístico. Como foi saber que queria viver da arte, viver no meio da cultura?

Secretário Marcos Apolo Muniz – A minha história começa quando criança ainda por volta dos dez anos, quando eu tive a oportunidade, inclusive de assistir a um espetáculo no Teatro Amazonas, naquela época. E naquele momento já me encantei. O grupo que ali estava tinha uma pessoa que eu conhecia do bairro, que me apresentou ao Titio Barbosa. A partir dali, eu comecei a fazer teatro; depois, animação de festas. Comecei, posteriormente, uma série de cursos de formação de teatro, interpretação, ainda no antigo Teatro dos Artistas e dos Estudantes, ali na [Rua] Ramos Ferreira [Centro de Manaus], hoje Américo Alvarez. E a minha história seguiu nesse sentido até eu chegar ali, na década de 90, não como espectador ou como artista, mas já como técnico no Teatro Amazonas. Tive a oportunidade de ser gerente de cenotécnico. Posteriormente, a gente montou a Central Técnica de Produção. Fiquei na Secretaria até 2012. Depois, abri a minha empresa de produção de eventos, dando consultoria nessa área em que eu acabei me formando na prática. Tenho uma formação acadêmica na área de arquitetura e urbanismo, uma pós-graduação em gestão e produção de eventos, mas o fazer cultural, o fazer diário, essa experiência na prática, [foi] o que me tornou mais seguro para continuar nesse caminho.

Marcos Apolo Muniz se tornou secretário após vida dedicada à cultura. Foto: SEC

Edilene Mafra – O Titio Barbosa descobriu muitos artistas. Eu tive a oportunidade de conhecê-lo no início da minha carreira como jornalista. Ele sempre ia almoçar na Fundação Rede Amazônia (Fram), na Carvalho Leal (Centro de Manaus), e cada almoço com ele era conhecer parte da história. Ele também foi muito importante na televisão, no teatro. Então, realmente foi um início interessante. Mas, você falou a parte da produção de alguns eventos. Esses eventos seriam os grandes festivais? Eu lembro que, quando o Festival de Ópera começou, não tinha mão de obra especializada aqui em Manaus.

Secretário – Certamente. Na verdade, no início da carreira no teatro amador, além de atuar, a gente tinha que já fazer cenário, fazer a luz, fazer o som. Nós nos dividíamos entre o fazer artístico e o fazer técnico. Isso já me deu uma experiência e me aproximou muito desse universo do backstage. Até o momento, realmente, de entrar no Teatro, no Teatro Amazonas, no caso, eu atuava nos eventos, nos espetáculos. O Teatro Amazonas é uma referência mundial e tem técnicos também que são grandes professores. O palco do Teatro Amazonas é uma grande escola. Quando tive a oportunidade de integrar, num primeiro momento essa equipe, de depois vir a chefiar, coordenar, com esses profissionais me deu uma nova perspectiva. O Festival de Ópera, realmente, foi um grande transformador do mercado técnico no Estado do Amazonas, formou muita gente, mudou a forma de se realizar evento. Isso, inclusive, impacta muita coisa que as pessoas nem sabem, mas que saiu dali. A gente começou a distribuir profissionais para outros mercados, como show business, os eventos sociais, enfim. Isso me deu uma experiência extraordinária. A criação da Central Técnica de Produção, o contato com profissionais de vários lugares do mundo. Isso foi muito importante para a minha formação técnica, minha formação artística também.

Apresentações culturais ganharam protocolos na pandemia. Foto: SEC

Edilene Mafra – Eu lembro bem. E a memória que eu tenho de ver a coxia (bastidores) do Teatro era sempre você e sua equipe ali na correria montando a estrutura, porque eu já tive a oportunidade de alguns festivais e isso me marca muito, principalmente nos ensaios técnicos.

Secretário – O interessante é que é um espetáculo à parte o movimento da equipe técnica na coxia, nos bastidores. É um trabalho que começa muito antes. Ele ocorre em paralelo à cena que está acontecendo e quando acaba, a gente continua trabalhando. E a gente tem uma dinâmica aqui muito diferente de produções que acontecem em outros estados. Já tive a oportunidade de acompanhar algumas, não só no Brasil, mas também no interior. Isso é do amazonense realmente. A forma de fazer do amazonense se difere de outras. Hoje, eu não vejo o palco de frente. Eu vejo o palco de cima. Você tem uma quadrado onde a cena está acontecendo e a visão das pessoas é limitada às cortinas pretas, que a gente chama de bambolinas, rotundas, pernas, as coxias, e atrás de tudo isso tem uma multidão de pessoas, de cenotécnicos, maquinistas, iluminadores, técnicos de som, camareiras. Estão ali contrarregras se movimentando para que aquele momento que você aprecia da plateia seja realmente perfeito.

Edilene Mafra – Essa trajetória deve trazer um olhar diferenciado. Conhecer os bastidores, conhecer toda a parte interna desse mecanismo ajuda no seu dia a dia enquanto secretário?

Secretário – Não tenha dúvida, porque justamente o poder público tem uma burocracia necessária, porque faz parte, digamos assim, da nossa rotina. É algo até que, de certa forma, a cada dia eu aprendo um pouco mais nesse sentido. E esse conhecimento eu acredito que ele agrega ao meu trabalho, à minha rotina a sensibilidade, o entendimento do outro, o entendimento daquele pedido, o entendimento da necessidade de nós fazermos algo que seja sim voltado ao cidadão, mas compreendendo que a valorização do artista, a valorização do fazedor ou fazedora de cultura implicará num resultado muito mais positivo para o cidadão para o espectador que vai prestigiar aquela atividade cultural. A gente, agora, passa a entender esse sentido da economia criativa dentro desse processo, porque a economia criativa, na verdade, ela já faz parte das nossas atividades, mas, a partir da integração da Economia Criativa na pasta da Cultura, a gente já começa a ter um outro olhar, entender que não é a cultura pela cultura, mas a cultura como geradora de vetores, de números que realmente expressivos e que impactam diretamente na economia do nosso Estado, na geração de trabalho, renda, e qualidade de vida.

Secretaria acredita que vivência nos bastidores trouxe sensibilidade. Foto: SEC

Edilene Mafra – A gente sabe que muitas atividades são concentradas na capital, porém, o interior também tem os seus movimentos culturais, suas agremiações, e como a secretaria tem se organizado para fazer com que os municípios também voltem a esse cenário da cultura?

Secretário – A gente tem um diálogo muito próximo com absolutamente todos os municípios. Por exemplo, tem um grupo de WhatsApp, onde a gente tem os 61 municípios. A capital não está, mas a gente tem um diálogo mais presencial, mas direto, mais próximo aqui. Durante toda a nossa gestão, a gente fez uma série de iniciativas, implementou uma série de ações para alcançar os municípios. Mais de 40 municípios já foram alcançados com alguma iniciativa da Cultura por parte do Estado. A partir do momento da pandemia, a gente começou um conjunto de reuniões com eles, uma vez que ficamos limitados a essa nossa possibilidade de termos uma atuação presencial e direta a partir da capital. O Liceu agiu nos interiores, através do envio de oficinas, cursos, palestras, inclusive com ações que foram distribuídas via WhatsApp. Em municípios onde você não consegue acompanhar uma aula, uma oficina online, a gente enviava esse conteúdo via WhatsApp. Nós realizamos recentemente a segunda edição da nossa Expedição Cultural, onde a gente fez Benjamim Constant, Tabatinga, Atalaia do Norte. Esses lugares já nos receberam recentemente. A própria Lei Aldir Blanc, a gente está dando todo o suporte técnico para que os municípios possam ter acesso ao recurso. Dos 39 municípios que não solicitaram seu recurso ou que não tiveram recurso liberado, esse recurso está sendo revestido para a Secretaria de Cultura e nós vamos lançar um edital voltado para o interior. Tudo isso faz com que a gente permita essa potencialização dessas atividades culturais. Todos os secretários municipais de Cultura ou coordenador de Cultura têm o meu contato pessoal e com isso a gente consegue manter essa proximidade.

Edilene Mafra – Entender todo o ecossistema que é a Cultura e a Economia Criativa em nosso Estado foi possível com a pandemia. Quando você se viu diante daquele momento era preciso tomar alguma medida. E ficou muito claro que a cultura não seria só os eventos, mas seria tudo o que estava envolvido, pessoas, famílias que dependiam dessa pasta, dessas atividades que foram suspensas. A gente sabe também que foi uma das áreas mais prejudicadas.

Secretário – Foi um grande desafio. Foi um, posso dizer, momento de transformação, de descobrimento, porque a pandemia estava distante, não se sabia ao certo como isso chegaria aqui. Eu falo que nós fomos a dois extremos em quatro dias. Numa sexta-feira, nós estávamos com dois festivais marcados, pessoas contratadas, técnicos trabalhando e já todo um planejamento do ano devidamente organizado. Daí a quatro dias, começou a cair agenda, cancelar eventos, fechar o Teatro, fechar espaços públicos. Isso, num primeiro momento, pra gente, foi muito impactante, foi muito assustador. A gente buscou caminhos. A gente passou algumas semanas entendendo como é que isso poderia ser conduzido e começamos a nos redescobrir. Nós migramos boa parte das atividades da Secretaria para as plataformas digitais. Isso já foi uma transformação. Tipo: visitas 360 graus, visitas virtuais agenda virtual, os corpos artísticos se apresentando. Lançamos um edital chamado ‘Fica na rede, maninho’, que tinha uma ambiguidade no nome. A gente começou a gerar conteúdo, compreendendo que as pessoas estavam ficando sem viagens, sem shoppings, sem praça, mas sem cultura a pessoa não fica. Em paralelo, a gente fez também um trabalho mais social, apesar de não ser nossa expertise, mas a gente uniu esforços com outras secretarias, o que nos permitiu disponibilizar rancho para as pessoas, montamos uma central de atendimento, inclusive com atendimento psicossocial. Foi um momento transformar. Lá na frente, a eficiência de como o Governo [do Estado] estava conduzindo as questões voltadas à pandemia, nos permitiu sermos o primeiro estado a retomar algumas atividades culturais, o primeiro teatro do país a abrir, o primeiro a receber visitas. Nós começamos a ser referência, sendo capa de jornais pelo Brasil afora, com estados ligando pra gente pra entender o nosso protocolo. Realmente, foi um desafio que valeu a pena pelo fato de a gente ter conseguido, mesmo com o mínimo, fazer algo.

Entrevista aconteceu no Palácio Rio Negro. Foto: Eliena Monteiro

Edilene Mafra – Nós tivemos um incentivo federal que veio trazer um novo gás, que é a Lei Aldir Blanc. Como está sendo a administração desse recurso aqui? Como o Estado tomou frente disso?

Secretário – Edilene, a Lei Aldir Blanc foi uma construção dentro do Fórum Nacional de Secretários/Dirigentes de Cultura nacional. A gente conseguiu descobrir um recurso perdido no Fundo Nacional de Cultura. Agregou-se a isso um valor do Tesouro, do orçamento desse ano. Depois de toda uma articulação com os deputados federais, com os senadores, chegamos ao momento que nós vivemos hoje. O Governo do Estado está operando o inciso primeiro – que é o auxílio emergencial, que inclusive a gente já pagou muita gente – e o inciso terceiro, que são os editais. O Estado recebeu R$ 38 milhões e, agora, nós já estamos recebendo a reversão, que são os recursos de 39 municípios do Amazonas que não conseguiram se inscrever, solicitar os seus recursos e isso vai se transformar num edital. Foi um grande desafio, porque nós estamos executando isso com prazos pequenos e administrando situações muito diferentes de tudo o que foi feito, como o Estado lançar um edital ao mesmo tempo que o município, dois editais que precisam se conversar de uma certa forma, pra você não ter concentração de recurso, sombreamento, uma série de questões técnicas e, acima de tudo, a divisão desse recurso de forma eficiente. A gente espera, ao final, ter conseguido distribuir esse recurso de uma forma muito democrática e o mais eficiente possível, pra que a gente possa amenizar um pouco esse impacto e a gente dá mais um passo em direção a esse outro momento, que vai ser o momento da retomada econômica.

Edilene Mafra – Há algumas semanas, a gente já percebe um certo movimento na agenda cultural. A novidade é que os eventos são híbridos. Mas, o que mudou?

Secretário – Sobre a questão dos protocolos, desde quando a gente começou a reabrir os espaços, a gente fez todo um trabalho de treinamento da equipe, readequação dos espaços, sanitização desses lugares e também a instalação de alguns equipamentos, como totens de álcool em gel, solicitar a questão do uso de máscaras. Os nossos profissionais também estão fazendo a aferição da temperatura na entrada e a questão do distanciamento. Nas visitas, vou dar um exemplo aqui do Teatro Amazonas, você tem que agendar grupos de 10 pessoas e, nos espetáculos, a gente está trabalhando com até 50% da capacidade do Teatro Amazonas. Nossos corpos artísticos, como a Filarmônica, ela não está tocando completa, ela só está fazendo com pequenos grupos. O Coral do Amazonas só está fazendo trabalho ainda virtual, eles estão treinando de forma remota. A questão do procedimento de agendamento, tanto para visita como para os espetáculos. A gente está atendendo absolutamente todos os públicos.

Com a pandemia, Estado reorganizou datas de grandes festivais. Foto: SEC

Edilene Mafra – Estamos ansiosos para saber o que vem pela frente. Temos o fim de ano. Tradicionalmente, nós tínhamos aquele grande momento do Natal. Com a Lei Aldir Blanc, também vamos ter outros eventos agora. Quais são as novidades?

Secretário – A gente já começou essa proximidade com o final de ano com a partida da nossa segunda edição da Expedição Cultural; estamos agora com o Encontro de Economia Criativa; está em andamento a questão do ‘Bora pro Parque?’; nós temos também o Domingo Autoral, que está acontecendo no Teatro da Instalação; e no dia 6, a gente reestreia a ‘A Caixa Mágica do Natal’, que foi um espetáculo que nós realizamos no ano passado, que recebeu algumas premiações. E partir daí, a gente já vai para o ano que vem, onde a gente já tem um planejamento todo organizado, mas que dependerá de uma série de situações, como ficará a questão da pandemia. Eu tive uma reunião com os presidentes das Escolas de Samba, que estão se entendendo sobre como ficará esse novo calendário do próximo ano; entender a partir de que momento, a gente poderá pensar os grandes eventos. Parintins já tem sua data marcada. A gente tem o Fecani, o Festival Folclórico do Amazonas. Já está tudo, de uma certa forma, planejado. Assim como também os eventos que são da nossa gestão: essa questão das atividades no interior, das oficinas, dos cursos, das exposições. Tudo isso já está planejado. Mas, é muito precoce e arriscado a gente falar em datas e momentos, por conta dessa questão [a pandemia]. Agora, o que é importante é: parar nós não vamos.

Edilene Mafra – Muito obrigada pela entrevista, secretário Marcos Apolo Muniz. Bom…pauta pra mim e pro Portal Edilene Mafra não vai faltar? (risos)

Secretário – Não vai faltar. Eu lhe asseguro!

Edilene Mafra – Fico feliz porque eu me coloco no lugar dos artistas, porque eu imagino o quanto eles não estão sofrendo pela distância do público.

Secretário – Certamente. Eu quero agradecer a oportunidade. Todos nós somos conhecedores e temos essa certeza que nós temos essa cultura diferenciada, uma cultura forte, uma cultura que é resistência acima de tudo. Está resistindo a todo esse momento. Isso tudo só tem nos ensinado e nos aproximado cada vez mais. Muito obrigado a todos os que nos acompanharam. Todos os espaços da Secretaria estão de portas abertas. Estamos aberto para receber a todos e espero que a gente possa se encontrar pessoalmente em breve.

Secretário assumiu a pasta em 2019. Foto: SEC

SERVIÇO

Após o pico da pandemia de Covid-19 em Manaus, a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Amazonas reabriu os espaços no dia 3 de julho de 2020, adotando protocolos.

No Teatro Amazonas, Centro Cultural Palácio da Justiça e Palacete Provincial, a visitação é feita em horário reduzido e só pode ocorrer por meio de agendamento on-line.

Para agendar uma visita, é preciso acessar o Portal da Cultura, escolher o espaço, horário e informar um número de telefone e o CPF. O funcionamento dos espaços culturais é das 9h às 15h, de terça a sábado. Os parques abrem das 6h às 14h, diariamente, e não precisam de agendamento.

Veja fotos dos bastidores da entrevista:

COMPARTILHE

error: Este conteúdo está protegido!