Manaus, 3 de dezembro de 2021

Cinema

Foto: César Nogueira/Divulgação
Foto: César Nogueira/Divulgação Foto: César Nogueira/Divulgação

Cinebiografia narra história de Selma Bustamante, artista paulista que contribuiu com o Teatro no AM

Cinebiografia será exibida no sábado, em Manaus. Entrada é gratuita.

Da redação

A Cacique Produções produziu um documentário que narra os principais pontos da trajetória da palhaça, atriz e diretora de teatro Selma Bustamante. A artista paulista teve forte atuação no Amazonas, especialmente em Manaus, onde contribuiu com o Teatro. A cinebiografia ‘Kandura’ será exibida no sábado (25/9), no Teatro da Instalação, na Rua Frei José dos Inocentes, Centro de Manaus, às 19h (horário local). A entrada é gratuita.

O público estará limitado à lotação máxima do espaço, e o acesso só será permitido com o uso de máscaras de proteção e a apresentação de comprovante de vacinação contra a Covid-19.

Foto: Valentina Ricardo/Divulgação

Produção

O projeto que deu origem ao longa-metragem foi contemplada pelo Prêmio Funarte de Estímulo ao Circo 2019. No início, a ideia era produzir um curta-metragem.

No entanto, de acordo com o diretor Wallace Abreu, que também assina a pesquisa, ficou inviável a construção da narrativa pensada para um tempo mais curto.

“Ao final das gravações dos depoimentos, tínhamos em mãos mais de 40 horas de entrevistas, além de um grande material de acervo da artista. Para não limitar a construção do documentário, decidi junto ao César Nogueira, que faz a fotografia e montagem do filme, e que assina comigo o roteiro, que iríamos partir para a construção de um longa”, explica.

A produção do documentário foi diretamente afetada pela pandemia de Covid-19, já que o cronograma previa etapas de realização em São Paulo e no Piauí, além do Amazonas.

“Quando a pandemia alcançou o Brasil em fevereiro de 2020, estávamos em São Paulo, finalizando as gravações com familiares da Selma, amigos e antigos membros do Grupo Ventoforte, do Ilo Krugli, onde a Selma iniciou sua trajetória profissional. Voltamos a Manaus e a produção teve que ser interrompida”, lembra Abreu.

“Só conseguimos retomar em setembro do ano passado, quando fomos à Teresina e quando conseguimos produzir as entrevistas em Manaus, que era o principal foco da produção, já que foi aqui que a Selma desenvolveu a maior parte da sua trajetória profissional”, completa.

Com a mudança de formato e ampliação do curta para longa-metragem, os recursos em caixa tornaram-se insuficientes. A produção precisou ser paralisada, mais uma vez, para a captação de novos recursos para que fosse feita a finalização do filme.

“Submetemos um novo projeto a editais da Lei Aldir Blanc, para que conseguíssemos, assim, concluir o filme. Fomos contemplados no final do ano passado com o Prêmio Manaus de Conexões Culturais, da Manauscult, o que nos permitiu fechar o documentário da forma como tínhamos pensado, realizando a mixagem de som, a colorização e inserção de legendas em inglês”, disse o diretor.

Foto: Eduardo Gomes/Divulgação

Desafios

Além do desafio de ser uma obra produzida em meio à pandemia, outro fator foi desafiador para a produção do filme, como explica o montador e também roteirista, César Nogueira.

“Construímos a cinebiografia de uma personalidade que teve a maior parte de sua trajetória artística e profissional em Manaus. Revisando seu acervo, encontramos um material fotográfico e materiais impressos muito ricos, como documentos e jornais. No entanto, de cara, logo percebemos a ausência de materiais audiovisuais que nos desse ‘gordura’ para a construção da narrativa. Isso nos acendeu um alerta importante quanto ao registro do que fazemos e como fazemos, nos incluindo nesse contexto. Somos responsáveis pela construção da nossa história. Temos que pensar como deixar registrado o que estamos fazendo, como estamos pensando o que fazemos. Pode parecer besteira, mas, futuramente, esse material poderá ser muito importante para contarmos a história do teatro no Amazonas, a história das artes no Amazonas, assim como a história de outras personagens locais”, pondera César.

Para o diretor Wallace Abreu, outro desafio na construção do documentário foi fazer com que a narrativa construída alcance não somente pessoas que conheceram Selma, mas principalmente que chegue naqueles que não a conheceram.

“Chegamos a diferentes cortes nessa busca por uma narrativa que alcance pessoas de diferentes lugares, que acessem o filme não porque conheceram a personagem que está sendo apresentada, mas que acessando a obra, passem a conhecê-la. Antes de finalizarmos o doc [documentário], apresentamos ele para pessoas em diferentes contextos, que não conheceram a Selma, para entender como ele estava chegando. Foi um pouco trabalhoso, mas necessário esse processo”, explica.

Foto: César Nogueira/Divulgação

Narrativa

“A Selma era uma grande professora de História do Teatro e tinha uma metodologia muito própria, não cronológica, para lançar esse conteúdo. Buscamos na construção do roteiro do documentário seguir um pouco por essa metodologia da Selma enquanto professora, apresentando sua vida de forma atemporal, mas passando por todos os tópicos necessários e importantes de sua caminhada”, afirma Abreu.

O filme conta com apoio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Amazonas (SEC-AM). Após o lançamento em Manaus, o documentário percorrerá o trajeto de mostras e festivais de cinema, nacionais e internacionais. Para este ano, estão previstas exibições presenciais em São Paulo e Teresina.

Depoimentos

O documentário tem uma hora de duração e conta com depoimentos de Ana Oliveira, Ana Cláudia Motta, César Nogueira, Jean Palladino, Jorge Bandeira, Hely Pinto, Karine Magalhães, Klindson Cruz, Wallace Abreu, Berenice Kavakama, Moacyr Bustamante, Fernando Bustamante, Toninho Heleno, Fátima Campideli, Rosa Comporte, Paulinho da Rosa, Laurent Mattalia, Luri Almeida, Chiquinho Pereira, Lívia Coêlho, Luciano Melo, Tania Wakisaka, Sofia Miyakoshi, Celia Pawel e Monica Huambo.

Foto: Divulgação

Trajetória

Nascida em São Paulo em 2 de outubro de 1955, Selma Bustamante era filha de mãe dentista e pai médico. Para fugir de uma futura carreira na medicina, caminho que seus irmãos mais velhos percorreram, ainda adolescente Selma se juntou a outros jovens no Grutemon, um grupo de teatro amador, onde a artista deu seus primeiros passos nas artes na capital paulista.

Anos depois entraria para a Escola de Comunicação e Artes (ECA), da Universidade de São Paulo (USP), onde concluiu sua graduação em Teatro.

Já como profissional da área, nos anos 1980, Selma se juntou ao Grupo Ventoforte, de Ilo Krugli, que viria a ser seu grande mestre. Foi no Ventoforte também que a atriz conheceu Edgar Lippo, compositor e multiinstrumentista, com quem a artista foi casada até 2008, ano em que ele morreu.

“Resolvemos abrir dois parênteses na trajetória da Selma para apresentar esses dois nomes que foram muito importantes na história da vida dessa mulher. Foram grandes parceiros da Selma nos palcos e fora deles”, ressalta o diretor do filme.

No início dos anos 1990, Selma e Edgar resolvem deixar São Paulo para conhecer outras regiões do Brasil. A primeira parada, em Teresina (PI), durou seis anos, até que em 1996 decidiram se mudar para Manaus, onde ambos viveram até seus últimos dias.

Em Manaus, Selma dirigiu o Grupo Baião de Dois, um dos mais atuantes grupos de teatro da capital amazonense no início deste século. Foi ainda um dos pilares nas discussões para implantação do curso de Teatro oferecido atualmente pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), e grande incentivadora à prática da palhaçaria e do teatro de rua no Estado, hoje dois movimentos que continuam sendo ampliados e ganhando força, a partir de nomes que tiveram Selma como mestra.

A artista faleceu em 2019, em decorrência das complicações de um câncer.

Foto: César Nogueira/Divulgação

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