Manaus, 18 de julho de 2026

Amazônia

Drones e tecnologias de ponta auxiliam os jornalistas a alcançar e documentar as realidades das comunidades mais remotas da floresta. Foto: Reprodução / FAS
Drones e tecnologias de ponta auxiliam os jornalistas a alcançar e documentar as realidades das comunidades mais remotas da floresta. Foto: Reprodução / FAS Drones e tecnologias de ponta auxiliam os jornalistas a alcançar e documentar as realidades das comunidades mais remotas da floresta. Foto: Reprodução / FAS

Dia do Jornalista: na era do Big Data, profissionais da Amazônia se reinventam como guardiões da democracia

Especialistas e estudantes refletem sobre o futuro da profissão na convergência digital.

Colaboração com o G1 AM

MANAUS (AM) — Houve um tempo em que o jornalismo na Amazônia era feito ao som de máquinas de escrever, com imagens captadas em câmeras enormes e fitas de áudio editadas manualmente. Hoje, o cenário se transformou: drones sobrevoam áreas remotas da floresta e algoritmos de Big Data,  imenso volume de dados digitais que exigem tecnologia de ponta para tratamento, cruzam informações para detectar crimes ambientais em tempo real.

Fotografia aérea capturada por drone mostrando uma comunidade ribeirinha na Amazônia. Várias casas com telhados claros estão distribuídas ao longo de uma faixa de areia branca, margeando um rio de águas escuras e cercadas por densa floresta tropical.
Tecnologias auxiliam a alcançar as realidades de comunidades amazônicas. Foto: Reprodução/FAS

Neste 7 de abril, Dia do Jornalista, a profissão dedicada a narrar o cotidiano da maior floresta do mundo não celebra apenas uma data, mas uma verdadeira metamorfose. Em meio à ‘Infodemia’, saturação de informações que muitas vezes dificulta o acesso a fontes confiáveis, e ao avanço das inteligências artificiais, o jornalista amazônico emerge como um guardião da democracia, unindo a sensibilidade do olhar humano ao rigor técnico no trato com os dados.

NOTA DO EDITOR: Essa reportagem foi produzida em colaboração com o G1 Amazonas; veja neste link.

Do Papel ao Código

Para a doutora Edilene Mafra, jornalista com 25 anos de carreira, essa evolução é uma missão de vida. Com uma trajetória que atravessa a transição do analógico para o digital, Edilene personifica o conceito de ‘jornalista-pesquisador’. Doutora em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), ela não apenas acompanhou a mudança tecnológica, mas se apropriou dela para se ‘ferramentar’ e fortalecer o direito à informação.

“Comecei minha caminhada quando as notícias eram datilografadas em laudas de papel. Viver a transição para o ecossistema digital não foi apenas um desafio tecnológico, mas uma oportunidade contínua do exercício da práxis (o fazer consciente e crítico)e da ética. Agora, utilizamos inteligência de fontes abertas, conhecidas como OSINT (Open Source Intelligence) e nos munimos de prerrogativas como a Lei de Acesso à Informação (LAI) e a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) para revelar o que está submerso em volumosos bancos de dados. Acredite: agora, ‘entrevistamos’ os dados para consolidar matérias que podem transformar a realidade das pessoas”, explica Edilene.

A jornalista e doutora Edilene Mafra, de vestido branco, ministra uma palestra. Ao fundo, um telão exibe dados comparativos sobre grandes eventos culturais do Brasil, como o Festival de Parintins, ilustrado com um boi-bumbá.
A jornalista Edilene Mafra destaca o uso de dados digitais para qualificar reportagens. Foto: Divulgação

Especialista em Jornalismo de Dados, Data Mining (mineração de dados) e Big Data, a jornalista defende que a essência da profissão permanece inalterada: a tecnologia deve servir ao propósito maior de potencializar os direitos dos cidadãos previstos na Constituição brasileira. Para quem conhece os desafios de atuar na Amazônia, a autoridade do profissional na região depende de um binômio inegociável: o domínio de ferramentas avançadas e o conhecimento profundo do ambiente. 

“Para ser jornalista em nosso território, é preciso compreender nossa geografia complexa, nossa história muitas vezes invisibilizada e a alma dos nossos povos. Só assim os dados deixam de ser apenas códigos, vídeos, textos ou sons e passam a ser histórias de vida ou provas cruciais contra a desinformação (fake news). Acima de tudo, o jornalista existe para investigar e garantir que a verdade fortaleça a democracia”, reforça Edilene, que ministrará a oficina ‘Checagem de Fatos e Desinformação Ambiental na Amazônia’ no V Congresso de Jornalismo da Amazônia (Conjor) da Ufam.

A jornalista Edilene Mafra sorri enquanto a jovem indígena Tainara Kambeba aplica uma pintura tradicional em seu braço. Ambas estão sentadas ao ar livre, cercadas por plantas.
União entre conhecimento técnico e sabedoria ancestral é fundamental para o futuro do jornalismo na região. Foto: Marcelo Ramos

Academia como Escuta

A celebração da data também marca os 57 anos do curso de jornalismo da Ufam, o pioneiro na região. Como parte das comemorações, o V Conjor traz o tema ‘Fronteiras Digitais, Vozes Reais’.  Segundo a coordenadora do de jornalismo, Grace Soares, a temática nasceu de um paradoxo: embora a Amazônia esteja há décadas no centro do debate climático global, as narrativas raramente partem de quem vive na região.

Para a coordenadora, o ‘Futuro da Notícia na Amazônia’ exige o domínio tecnológico, como o uso de inteligência artificial e satélites, sem que se perca a ancestralidade da escuta. “É uma reflexão complexa que nos obriga a pensar o jornalismo amazônida sob a perspectiva de contar nossa história de ‘dentro para fora’, resistindo a visões estrangeiras estereotipadas e simplistas. Precisamos garantir o direito à informação mesmo em cenários de ‘desertos de notícias’, um conceito que exige toda a nossa atenção”, destaca.

Mesa de debates em um auditório com quatro pessoas. Uma mulher de vestido verde está de pé falando ao microfone, enquanto os outros três homens, sentados, prestam atenção. Ao fundo, um telão projeta a logomarca de um evento acadêmico.
Congresso promove reflexão sobre o ‘jornalista-pesquisador’ e desafios da era digital. Foto: Divulgação

O congresso, que ocorre de 22 a 24 de abril de 2026 no campus da UFAM, reflete esse compromisso. A mesa ‘’A Amazônia em Pauta’ promoverá debates sobre colaborações globais que preservem a essência regional, com profissionais premiados como Daniela Branches e Raphael Alves. Além disso, oficinas práticas e Grupos de Trabalho (GTs) aproximam os acadêmicos do rigor exigido pela realidade local.

Ao final, a professora Grace Soares define a tônica deste Dia do Jornalista: resistência e inovação. “O desafio é ‘hackear’ a lógica tradicional, usando a inovação para potencializar a cobertura em territórios sensíveis. É chegando aos lugares ‘invisíveis’, investindo em um jornalismo profundo e independente, que combateremos a desinformação. Na era digital, a tecnologia é o instrumento capaz de amplificar nossas vozes, levando-as onde antes o alcance era limitado”, conclui.

Grande grupo de estudantes e professores sorridentes posando para uma foto coletiva em um auditório. Ao fundo, o telão indica o "22º Encontro Nacional de Ensino de Jornalismo e IV Congresso de Jornalismo da Amazônia".
Curso de jornalismo da UFAM celebra 57 anos formando profissionais comprometidos com a Amazônia. Foto: Divulgação

Essa amplificação de vozes ganha novos contornos quando lideranças de comunidades tradicionais buscam a profissão para narrar suas próprias realidades e assumir o protagonismo.

Voz que transcende o território

A transformação do perfil jornalístico na região também passa pelo protagonismo de quem sempre foi objeto da notícia. Tainara Kambeba, jovem liderança do povo Omagua Kambeba, é um exemplo dessa nova era. Nascida na Aldeia Jaquiri, em Alvarães (AM), e criada pelos bisavós na Comunidade indígena Três Unidos, na margem esquerda da Área de Proteção Ambiental (APA) no Rio Cuieiras, região do Rio Negro. Lá, Tainara aprendeu desde cedo que a preservação da floresta e da cultura ancestral é imprescindível para o futuro.

Seu interesse pela comunicação despertou aos 12 anos, por meio do projeto’Repórteres da Floresta’, da Fundação Amazônia Sustentável (FAS). O que começou como um sonho de infância para vencer a timidez e produzir jornais impressos na comunidade, sem acesso à internet, tornou-se seu projeto de vida. Para concretizá-lo, Tainara deixou sua casa e passou a morar em Manaus, onde cursa a graduação em jornalismo.

A jovem ativista indígena Tainara Kambeba segura cuidadosamente uma muda de planta com raiz em um jardim ensolarado, simbolizando seu compromisso com a sustentabilidade e a preservação ambiental.
Para Tainara, a comunicação é indissociável da luta pela preservação da Amazônia. Foto: Marcelo Ramos

“Eu era muito tímida e mal conseguia me expressar, mas ao participar do projeto, me desenvolvi. Na época, produzíamos jornais impressos para distribuir nas comunidades locais. Descobri na comunicação o sentido para a minha vida e para as atividades que realizo pelo bem do meu povo e da nossa floresta, e foi assim que estive em lugares que nunca tinha imaginado que chegaria. Tudo é comunicação”, afirma. 

Hoje, a jovem que distribuía informativos de papel na comunidade ocupa palcos globais e vê no jornalismo a ferramenta definitiva para qualificar seu ativismo e chegou a participar em duas edições da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP).

Como Jovem Ativista da Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) no período de 2023-2025, Tainara representou o Brasil na  COP27 (Egito) e na COP30 (Brasil), além de integrar a Rede de Comunicadores Jovens da Makira-E’ta. Para ela, ocupar esses espaços globais é cumprir um papel que já compreende com clareza: ecoar as vozes de seu povo com técnica e autoridade.

Tainara Kambeba, jovem indígena com trajes e pinturas tradicionais, ergue o punho direito cerrado em um gesto de força, resistência e luta por direitos, tendo a natureza como pano de fundo.
“Nessa luta, a minha arma é a palavra e a minha voz”, afirma a estudante e ativista Tainara Kambeba. Foto: Marcelo Ramos

“Nossos ancestrais lutaram muito para que estivéssemos aqui hoje. Carrego a voz daqueles que não podem estar nos lugares onde chego, levando as pautas do nosso território. Através do jornalismo, posso dar visibilidade à cultura e às lutas indígenas, levar informações sobre mudanças climáticas para as pessoas entenderem a importância da floresta. Nessa luta a minha arma é a palavra e a minha voz, afirma a estudante.

Ao decidir pela graduação, Tainara consolidou o desejo de que as populações tradicionais deixem de ser apenas citadas e passem a ser as narradoras de sua própria história, unindo a sabedoria ancestral às infinitas possibilidades da comunicação na era digital.

O Futuro da Notícia

Neste 7 de abril, o recado é claro: em meio a algoritmos e fronteiras digitais, a verdade continua sendo o território mais importante a ser desbravado. Com o uso de drones, análise minuciosa de satélites e o cumprimento esperado da Lei de Acesso à Informação (LAI), o jornalismo amazônico reafirma seu papel como sistema indispensável de fiscalização e promoção da cidadania.

Mais do que nunca, a união entre a alta tecnologia e a alma amazônica prova que a informação de qualidade é a bússola que orienta o desenvolvimento sustentável e protege as vozes reais da floresta. O futuro da notícia já começou, e ele é escrito com ética, rigor e um compromisso inabalável com a democracia.

Vista aérea da comunidade Ilha das Guaribas, no Rio Amazonas, com casas de palafita parcialmente alagadas durante o período de cheia. O pôr do sol reflete nas águas que cobrem a vegetação ao redor das moradias.
Comunidade Ilha das Guaribas, no Rio Amazonas, durante o período de cheia. Foto: Felipe Pessoa

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